domingo, 19 de dezembro de 2010

Apontamentos da cidade levam ao urbano

  Escrito no primeiro semestre 2009, e apresentado para disciplina da Cidade ao Urbano PPG Geografia UFRGS.

Quando falamos em cidade podemos recordar as inúmeras abordagens transcorridas ao longo da história para se compreender o fenômeno do surgimento dessa forma espacial. São inúmeros os questionamentos que conduziram autores das ciências humanas para produzir escritos que ajudassem a compreender esse “agrupamento humano”.

Aqui trabalharemos reflexões a respeito de um caminho que aponte idéias que levam um olhar focado na cidade para algo mais complexo, que é o pensamento sobre o fenômeno urbano. Pretendemos, mais do que apontar detalhes de opiniões expressas por autores sobre o contexto que envolve a cidade e o urbano, evidenciar que na trajetória percorrida pela Geografia urbana encontramos saltos qualitativos a cada abordagem desenvolvida em tempos diferentes.
Estas reflexões são fruto de toda uma trajetória acadêmica que culmina com as discussões realizadas nos diversos encontros da disciplina ofertada na Pós-graduação em Geografia da UFRGS, ministrada pelo professor Oscar Sobarzo Miño. Observamos que este texto não tem ambição imediata de apresentar uma conclusão específica sobre a cidade e o urbano, mas sim, como já dito anteriormente “apontar” nas reflexões um caminho que leve observação da cidade ao urbano.
Optamos por realizar apontamentos da cidade de Porto Alegre, a capital gaúcha, que permitirá conduzir as reflexões as quais nos propomos. Na verdade faz parte de um exercício que buscou fazer um caminho inverso, invés de escrever observações da evolução do pensamento escrito sobre a cidade, realizamos nós escritos sobre a cidade de Porto Alegre numa perspectiva descritiva. Partindo das ideias abstraídas desse exercício daí sim caminharemos para um olhar mais elaborado, da cidade buscaremos reflexões que conduzam ao urbano. Através deste exercício apontaremos contradições da condição urbana da cidade de Porto Alegre, buscando mostrar que a análise feita na escala apenas da cidade ou tão somente descritiva dos movimentos que dão “vida” a cidade não garantem a clareza do processo histórico construtor dessa realidade produtora de desigualdades e espoliação urbana1
Apontamentos da cidade
Para um observador atento há grandes chances de ficar surpreso com a dimensão de uma cidade como Porto Alegre, inda mais para alguém que não pertence a cidade, ou seja, citadino de outro lugar. Trata-se de uma capital de um Estado.

Fotografia centro de Porto Alegre, vista Mercado público.

O emaranhado de pessoas que circulam no centro dessa cidade é algo que expressa um cotidiano ao máximo dinamizado. Durante uma rápida observada nas ruas do centro em dia da semana percebemos milhares de pessoas a caminho de suas atividades, vão ao trabalho, as compras, aos bancos ou até mesmo trabalham nesse vai e vem dinâmico do centro da cidade. O curioso é observar a paisagem que esses fluxos imprimem no espaço, há um misto de concentração e desconcentração de pessoas conforme o ângulo a ser visto.
Um dos motivos da concentração se dá normalmente em função de atividades artísticas e culturais que convivem com o dinamismo do centro da cidade. Outro motivo é o comércio por meio de lojas estabelecidas em prédios, edifícios ou até mesmo em secções das ruas. Em contraste à concentração percebemos a desconcentração, ou seja, é mais importante na configuração da paisagem os fenômenos que dão vida aos pontos do espaço que surgem as aglomerações/concentrações de pessoas.
Por mais que reconheçamos na paisagem essas concentrações/aglomerações percebemos certa “harmonia” no funcionamento da cidade. Existem regras que coordenam o transito de veículos, sejam eles carros, ônibus, motocicletas ou caminhões. Existe certo ordenamento dos fluxos. Se conseguirmos nos livrar por alguns instantes da obviedade que faz encarar o dia a dia através de rotineiras ações que fogem dos questionamentos, podemos ficar surpresos com o fato de a cidade comportar mais um milhão de pessoas! Como isso se torna viável?
Com uma vista aérea da cidade percebe-se melhor a dimensão desse aglomerado humano, no entanto, de forma a ver a cidade como um todo. O ordenamento das principais ruas indica a grande capacidade que a humanidade tem em conseguir organizar a condução do cotidiano na cidade. É perfeitamente possível destacar quais são as principais vias que articulam os movimentos de pessoas e mercadorias no interior da cidade, até parecem verdadeiras “veias”, os “vasos sanguíneos” que permitem a vida da cidade em seu dinamismo. Comprovamos este fato quando observamos aos domingos, dias em que há menor dinamismo da cidade, que os fluxos reduzem sensivelmente, dando um ar de “adormecimento”. A cidade parece seguir um compasso ditado pela condição humana da sociedade, quando maioria da população dorme a cidade também “adormece” quando grande parte da população aos domingos não trabalha, a cidade trabalha menos. Esse olhar da cidade por cima, nos permite sim, reconhecer a ligação direta existente do Ser humano com a cidade, ambos pulsam no mesmo compasso.


Vista conjunto de viadutos próximo a rodoviária de Porto Alegre.

Podemos nestes apontamentos estabelecer dois recortes para descrever a cidade que observamos. Um que procura admitir um recurso cultural de diferentes grupos sociais que conduzem suas vidas de acordo com seus valores na cidade. Outro recorte pode ser a generalização, através de um olhar que comporte ao mesmo tempo todos os grupos culturais em uma mesma quadra de análise, trata-se de observar os aspectos mais universais do comportamento humano que atuam na competição econômica e na seleção natural que estabelecem o desenvolvimento da cidade através do dinamismo desta competição.

Acreditamos através de nossas observações, que os dois recortes citados acima são passíveis de considerar a cidade, pois ambos se complementam.

Quando, ao olhar as imagens acima reconhecemos uma dinâmica organizada pela busca de condições de cada pessoa para seu sustento, podemos admitir que há uma competição. Fato que ajuda a concluir desta maneira é a necessidade que cada um tem de se locomover com rapidez, com objetividade. As pessoas se movem para dar conta de conquistar seus bens e serviços necessários para sua mantença enquanto ser humano que tem necessidades vitais.

 O desenvolvimento da cidade conduziu as pessoas para esse dinamismo que busca a sobrevivência de forma cada vez mais rápida. Destacamos na paisagem da cidade os diversos telefones públicos que indicam essa evolução, uma evolução de pouco tempo se compararmos a história da civilização. Até a energia elétrica podemos reconhecer como decorrência de desenvolvimento da cidade, basta recorrer à situação da cidade no início do século passado, certamente verá as diferenças. Outro fato é visível no transito, que cresceu de forma muito espantosa, pois condiciona uma mudança incrível da paisagem da cidade. Podemos encarar todo esse desenvolvimento como uma evolução mediada pelas condutas de competição entre os grupos e indivíduos da sociedade. Esse recorte dá conta de abstrair a cidade como forma espacial resultante da natureza social do humano, evidenciando que o comportamento das pessoas conduziu a expansão da cidade em função da competição econômica ao longo dos anos.
Como complemento deste recorte específico de observar a cidade (apresentado acima), nós encontraremos em escala específica de grupos, outro recorte. A competição pela vida na cidade, vista de forma generalizada, nos dá uma noção do ambiente de rivalidades. No entanto, no conjunto social podemos converter essa visão para uma questão de cooperação competitiva. Vejamos, por mais que haja competição na cidade de Porto Alegre, por exemplo, entre os vendedores ambulantes há uma certa “trama de vida” que conduz a competição individual a uma “harmonia” expressa na acomodação das rivalidades pela “cooperação” entre os vendedores. Ora, todos precisam ganhar a possibilidade de adquirir condições de bem viver, eles competem nas vendas é verdade, mas há uma cooperação no que diz respeito a permanência do comércio ambulante. Neste caso evidenciamos emergência de outro recorte de análise. Trata-se de uma escala ligada aos grupos específicos.
Rapidamente apontamos o exemplo do comportamento de vendedores ambulantes que no centro da cidade se rivalizam para atingir mais vendas, trata-se de um caminho investigativo que venha a buscar entender a construção da cultura específica deste grupo em função do “aspecto cooperativo” presente na lógica de exercício da vida.
Concluindo esta parte dos apontamentos queremos dizer que o exercício da vida de diferentes grupos na cidade, sejam eles, categorias diferentes de trabalhadores, residentes de bairros específicos, moradores de vilas ou favelas e grupos étnicos, dentre outros, são “comunidades” específicas, mas que seu arranjo espacial é passível de exercício abstrato que deduza modelos de desenvolvimento da cidade, quando analisados tais comunidades no contexto funcional harmônico.
Vendedor ambulante no centro de Porto Alegre.

Um balanço necessário
Até aqui fizemos vários apontamentos buscando descrever e desenvolver alguma lógica para a cidade que causa espanto para quem atentamente pára para observa - lá através seu dinamismo cotidiano. Notemos que os escritos acima estão longe de caracterizar um texto acadêmico com rigor científico, mas é muito ilustrativo para pensarmos a cidade enquanto expressão da organização humana e mais do que isso, auxiliar na compreensão dos trabalhos produzidos na primeira metade do século passado.
Uma reflexão que tenho decorrente das leituras, dos trabalhos que chamamos oriundos da Ecologia Humana e também da Geografia Tradicional, é que realmente compreende-se o envolvimento curioso e atento dos pesquisadores na questão da cidade. Se hoje, ainda é possível deslumbrar-se com a dimensão das cidades, do dinamismo, da “evolução” em pouco mais de um século, fico pensando como não seria para um pesquisador inserido no contexto onde a mudança de um mundo rural começa a se encaminhar para um mundo mais citadino.
Os pesquisadores da Escola de Chicago foram pioneiros nos questionamentos sobre a cidade no ocidente. Buscaram entender o que estava ocorrendo em Chicago no pleno processo de crescimento da cidade, no início do século passado. Essa expansão ocorria com problemas de conflitos entre diferentes grupos que migravam para a cidade, havia todo um contexto promissor para as reflexões da academia. Robert E. Park foi importante pesquisador em Chicago e influenciou com suas pesquisas empíricas, muitos trabalhos. Usou metáfora da ecologia para escrever sobre a competição pelo espaço, influenciado pelo Darwinismo. Um aspecto típico das pesquisas era “confecção de mapas, onde se situavam os diferentes tipos de população, grupos étnicos, raças, espécies de atividades: em que lugar da cidade, por exemplo, se concentravam as atividades criminosas?” (BECKER, Howard. 1990)
Existe certa historiografia do pensamento da cidade e a Geografia. Concordamos que os estudos em sociologia da Escola de Chicago tenham influenciado as pesquisas em Geografia. Reconhecemos também que no caso dos estudos no Brasil a abordagem empirista resultante das influencias da Ecologia Humana permitiram que cada vez mais se problematizassem reflexões das cidades, num continuum dialético de renovação dos pontos de vista dos pesquisadores. Mas não podemos esquecer-nos do processo histórico produzido em escala global.
Os estudos conduzidos pelo EUA, através da famosa Escola de Chicago ganharam força para repercutir em todo hemisfério ocidental pela pertinência contextual estabelecida pela sobreposição de um país que objetivava ser potencia mundial. Fato que pode ilustrar essa situação é a influencia do milionário americano da industria do petróleo que fundou a Standard Oil, o famoso Rockfeller, John D. Ele fez uma enorme doação para a Universidade de Chicago. (BECKER, Howard. 1990)
No livro “A Produção social do espaço urbano” de Mark Gottdiener apresenta um balanço das principais teorias que pensam o espaço urbano nos capítulos 2 e 3. Ele faz um detalhamento historiográfico e dos personagens que desenvolveram influencias no estudo da cidade. Quero aqui concordar, com este autor na crítica que expõe a respeito das formulações abstratas, usadas para entender a organização social pela Ecologia urbana. Tais formulações desconsideravam todo o conflito em torno da distribuição injusta da riqueza social.
Contudo, nos apontamentos sobre a cidade de Porto Alegre, num exercício1 de reflexão descritiva buscamos explorar as possibilidades discursivas de abordagem semelhante a Ecologia Urbana. Através deste exercício conseguimos construir um ensaio de análise que caminha para uma coerência nos fatos expostos. A descrição revelou situações da cidade no início do século XXI, poderíamos continuar a descrição num esforço quase que antropológico. Fico inclinado a reconhecer utilidade dessa abordagem no contexto da cidade, pois a cada situação observada há uma descrição cabível no uso de metáforas da Ecologia. Basta o leitor aqui recordar os inúmeros termos utilizados entre aspas na parte do texto intitulada Apontamentos da cidade.
Agora queremos destacar situações contraditórias que exigem um nível de análise que ultrapasse a “descrição qualificada” da cidade. O pensamento construído de forma isolada da paisagem da cidade condiciona alguns reducionismos, que dão ao processo histórico aparente ausência de influencia no que observamos, por exemplo, em Porto Alegre. A cidade encontra-se enquanto materialidade observável. O entendimento do processo histórico que desencadeou o surgimento, expansão e nível de complexidade das cidades contemporâneas faz parte da dimensão de uma sociedade que cada vez mais se consolida, através do que chamamos de urbanização.

Da cidade ao urbano: apontamentos
São vários os estudos realizados pela Geografia que consideram a cidade inserida num contexto de urbanização, num processo histórico. Destacamos também os vários estudos que se preocuparam em entender os padrões seguidos nas cidades em suas formas espaciais. São inúmeros trabalhos que buscam entender a inter-relação das cidades através das redes e hierarquias urbanas, outras conhecidos textos são os que realizavam por “Monografias Urbanas”. Nos transcorrer destes estudos saltos qualitativos seguiram sucessivas mudanças na forma da ciência geográfica entender a cidade, o que cultiva a idéia de que as várias abordagens para a cidade e o urbano, no desenvolvimento dialético permitiu fortes contribuições, o que tolera não desconsiderar as diferentes abordagens teórico-metodológicas da Geografia Urbana.
É interessantíssimo destacar que é pelo desenvolvimento das reflexões sobre a cidade que chegamos ao Urbano. No transcorrer do percurso das reflexões coletivas da ciência, foram momento a momento percebendo que, explicar a cidade por ela mesma não daria conta das crescentes dúvidas que surgiam das contradições descobertas em cada trabalho. A cada impasse organizativo da cidade, a cada conflito entre grupos, a cada problemática ambiental que continuamente se ampliava (e amplia) os fatos exigiam novos olhares e novas reflexões.
Devo aqui apontar mais uma vez pelo que já foi dito, a respeito da necessidade de buscar entender a cidade inserida num processo histórico social de totalidade2. É curioso o fato da influencia marxista ter chegado ao Brasil apenas em meados dos anos 70 na Geografia urbana, assim como, curioso a influencia no ocidente ser tardia. Em uma primeira aproximação, deste fato, exploro a ideia de que a abordagem cientifica (ocidental) primeiro tentou negar a contradição básica, de que, a produção dos bens necessários a manutenção da vida são coletivos mas a apropriação tem sido privada. Não dando conta de explicar os problemas urbanos (e das cidades) em função das contradições a geografia foi se renovando3 até considerar os problemas da cidade como problema intrínseco ao processo urbano.
A cidade de Porto Alegre convive com engarrafamentos, fato presente nas regiões metropolitanas de todo país e mundo; o comércio informal insere-se como alternativa de de centenas de milhares de famílias que não tem na “formalidade” da cidade legal um espaço para bem viver, estruturando-se os “circuitos inferiores” da economia urbana, conforme contribuição de Milton Santos; o desenvolvimento da cidade é desigual e desumano para muitas famílias que se quer tem condições dignas de alimentação, moradia e saúde; a criminalidade é um ponto chave para qualquer descrição da cidade, basta fazer a pergunta na região central de Porto Alegre para qualquer cidadão: “aqui é seguro?” certamente as observações feitas dirão que nenhum lugar se está seguro na cidade.
Tais apontamentos da cidade Porto Alegre não se explicam na “cidade”, mas sim no fato urbano da sociedade. Ao menos que queiramos descrever de forma ingênua assim como feito na primeira parte destes escritos. Para entender de forma a desvendar a essência do processo de urbanização faz-se necessário reconhecer a contribuição iniciada por Karl Marx e Engels sobre a cidade e o Capital. Reconhecer que historicamente se estabelece relações de conflito entre a divisão do trabalho e a produção reprodução da cidade em meio ao processo de urbanização da sociedade, nestas palavras encontramos reflexões de Henri Lefebvre.

Apontamos assim observações da Cidade ao Urbano.


Mauricio Scherer
Mestrando Geografia

Bibliografia:
GOTTDIENER, Mark. A produção social do espaço urbano. São Paulo: Edusp, 1993 [1985], p. 35-114.

VASCONCELOS, Pedro de A. O pensamento sobre a cidade no período da institucionalização da Geografia (1870-1913). In: _____. Dois séculos de pensamento sobre a cidade. Ilhéus: Editus, 1999, p. 49-95.

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MCKENZIE, Roderick D. O âmbito da ecologia humana. Cidades. Presidente Prudente, V. 2, n. 4, p. 341-353, jul.-dez. 2005. [original de 1926].

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WIRTH, Louis. O urbanismo como modo de vida. In: VELHO, Otávio G (org.). O fenômeno urbano. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1976, p. 90-113. [original de 1938]

ABREU, Mauricio de A. O estudo geográfico da cidade no Brasil: evolução e avaliação. Contribuição à história do pensamento geográfico brasileiro. In: CARLOS, Ana F A. Os caminhos da reflexão sobre a cidade e o urbano. São Paulo: Edusp, 1994, p. 199-322.

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FAISSOL, Speridião; GALVÃO, Marília; GEIGER, Pedro. Estudos urbanos-regionais na área de influência de Recife. Revista Brasileira de Geografia. Rio de Janeiro, ano 37, n. 1, p. 3-49, jan.-mar. 1975.

SANTOS, Milton. A cidade como centro de região: definições e métodos de avaliação da centralidade. Salvador: Livraria Progresso, 1959.
____. O centro da cidade de Salvador. Salvador: Universidade da Bahia, 1959 [1958].
____. O espaço dividido: os dois circuitos da economia urbana dos países subdesenvolvidos. 2. ed. São Paulo: Edusp, 2004 [1979].
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HARVEY, David. A justiça social e a cidade. São Paulo: Hucitec, 1980 [1973]. Capítulo 4: A teoria revolucionária e contra-revolucionária em Geografia e o problema da formação do gueto; e Capítulo 5: Valor de uso, valor de troca e a teoria do solo urbano (p.l03-166).
____. Do administrativismo ao empreendedorismo: a transformação da governança urbana no capitalismo tardio. In: ____. A produção capitalista do espaço. São Paulo: Annablume, 2005, p. 163-190. [Texto originalmente publicado em 1989].

1 Trata-se realmente de exercício de busca reflexiva não tendo maiores efeitos exploratórios da cidade no que diz respeito a produção cientifica que busque objetivos específicos.
2 Noção de totalidade é certamente uma contribuição do prof. Milton Santos.
3 Claro que ainda existem possibilidades de contribuição para pensar a cidade atual as diferentes abordagens.
 
1 Sobre as condições de vida nas cidades, há importante estudo de Lúcio Kowarick, no Livro a Espoliação urbana.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Movimentos sociais na produção e reprodução do espaço urbano

OBS: Este texto foi originalmente publicado pelo XVI Encontro Nacional dos Geógrafos, cujo endereço eletrônico da publicação é este: www.agb.org.br/evento/download.php?idTrabalho=3882.


Mauricio de Freitas Scherer1,
Paulo Roberto Rodrigues Soares2

            1. Geógrafo, mestrando do Programa de pós-graduação em Geografia – UFRGS mauricioscherer@gmail.com
2. Prof. Doutor do Programa de pós-graduação em Geografia – UFRGS (orientador)


INTRODUÇÃO

Este trabalho faz parte de uma pesquisa desenvolvida na produção de dissertação do mestrado. Aqui será apresentado parte de um objetivo mais amplo de investigar a participação dos movimentos sociais na produção do espaço urbano, buscando sistematizar os resultados da disputa por moradia através do protagonismo dos movimentos sociais na cidade Santa Maria-RS. Nosso foco aqui é trabalhar Movimentos sociais e urbanização em Santa Maria-RS no sentido de apresentar resultados preliminares que indiquem os contornos teóricos possíveis para abordar ação dos movimentos sociais e urbanização.
Trabalharemos na perspectiva dos movimentos sociais que tem nas ocupações sua principal expressão de luta por mudança do Status quo da realidade social. A problemática que se apresenta enquanto proposta de trabalho diz respeito a indagação quanto a contribuição dos movimentos sociais para melhoria socioespacial das cidades, em especial o caso de Santa Maria-RS em sua expansão/consolidação urbana. Investigar os movimentos sociais urbanos permitirá subsídio para melhor compreender a dinâmica da cidade e a participação dos atores construtores deste espaço, com destaque para os movimentos sociais.


METODOLOGIA

A produção deste trabalho, até o momento, seguiu forte reflexão teórica-metodológica para conduzir a pesquisa. Usamos articulação de investigações anteriores sobre a questão urbana em Santa Maria-RS e movimentos sociais com as reflexões teórico-metodológicas de revisões bibliográficas. Desta maneira nossa prática de campo, observações, relatórios de pesquisa e dados de pesquisas anteriores se incluem como recursos metodológicos que usamos para este trabalho. A estratégia utilizada foi de relacionar a produção do espaço urbano no contexto do processo de urbanização e movimentos sociais urbanos que ocupam áreas para reivindicar moradia. Neste sentido, o uso empírico das ocupações servem para fazer análise pretendida, seguido de avaliação e contextualização da teoria sobre urbanização e produção/reprodução do espaço.
Esse exercício que articula empírico (ocupação) e avaliação/contextualização teórica de urbanização possibilitou esta breve síntese até agora alcançada, qual apresentamos aqui.

DESENVOLVIMENTO DA PROPOSTA
Ajustando as “escalas”
O estudo do espaço geográfico persegue muitos caminhos para entender sua formação e dinâmica. A Geografia é o ramo da ciência que a muito vem definindo os contornos aos quais seguir para bem interpretar este fenômeno humano, decorrente das relações sociais com o meio. A delimitação espaço urbano, aqui em questão, não significa uma compartimentação a um objeto diferente da lógica mais ampla do conhecimento geográfico, mas sim como já dissemos, uma delimitação um pouco mais restrita a determinado ângulo de observação, o espaço urbano. Detalhando um pouco mais, expomos nosso tema Movimentos sociais na produção e reprodução do espaço urbano em Santa Maria -RS”. O interesse é pesquisar o espaço urbano, sua produção enquanto materialidade da sociedade, sua dinâmica e problemáticas nas relações dos movimentos sociais na cidade de Santa Maria, no Estado do Rio Grande do Sul. Além da produção do espaço urbano, também vamos buscar trabalhar a reprodução, demarcando o movimento que há no urbano enquanto processo em constante dinamismo na cidade. Em síntese dizemos, a pesquisa é voltada para a produção/reprodução do espaço urbano por meio dos movimentos sociais em Santa Maria.
Contextualizando realidades
Com uma realidade tipicamente urbana, a sociedade mundial vive dilemas que são na grande parte indissociáveis aos problemas da cidade, de uma maneira geral. Entendemos como sendo um forte problema em pesquisas nas ciências sociais e humanas buscar reflexão e consequente ação para enriquecer saídas aos problemas urbanos. Não raro encontramos posicionamentos genéricos próprios do senso comum que indicam o crescimento das cidades pela ótica da “desorganização” do espaço, figurando apenas algumas poucas cidades “organizadas”. Este tipo de pensamento segue provavelmente um olhar objetivo e ideologizado do espaço, que qualifica como sendo bem ou mal planejado. As cidades que a grosso modo, identificamos como bem “organizadas” e planejadas são poucas, mas ajudam a manter as críticas, que no cotidiano as pessoas remetem aos problemas ditos urbanos. Um exemplo claro deste aspecto que descrevemos, é a culpa da “desorganização” e falta de planejamento do espaço frente as áreas favelizadas e de ocupação irregular do solo urbano. A expressão conhecida é: “a cidade não teve planejamento...”; “em tal cidade é diferente, lá teve planejamento”. O que queremos chamar atenção é a construção de um ideário que sustenta um caráter aleatório da construção das cidades, o que denota parte do discurso corrente no interior da sociedade. Nestas palavras apontamos um problema a ser constantemente enfrentado por pesquisas sobre o urbano, vencer o senso comum.
É corrente para muitos críticos que a atuação dos movimentos sociais nas cidades, podem prejudicar possível organização da cidade, ou seja, os movimentos sociais como, por exemplo, os que ocupam áreas para fins de moradia criam “desorganização” do espaço das cidades. Desorganização espacial urbanística e jurídica tal formulação prega que movimentos sociais apenas “atrapalham” o bom andamento da cidade. Não seria interessante para o campo do conhecimento científico verificar até que ponto essa formulação se sustenta? A nosso ver a Geografia pode e deve discutir esse problema. A essa opinião podemos vincular a presença nem sempre evidente do que David Harvey denominou de teorias do status quo e contra-revolucionária (1980).
Nas últimas décadas, sobretudo pós anos 1980, no caso brasileiro os movimentos sociais ganharam destaque pela intensidade das contestações e reivindicações ao Estado. Antes deste período, fortes eram as denúncias à ditadura militar. Em decorrência do “enfraquecimento” do regime militar, “Novos personagens entram em cena” como a referência dada por Eder Sader (1988). As reflexões teóricas também avançam, buscando entender as ocorrências dos movimentos sociais e suas condições históricas e sociais de atuação. Verificamos uma presença bastante forte a partir da década de 1990 do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST nas atuações e, em desdobramento grande preocupação acadêmica em estudar. Queremos dizer que os movimentos campesinos possuem grande destaque, enquanto os movimentos urbanos, embora tão presentes, não são evidenciados de igual maneira. Estudar movimentos sociais urbanos na participação da produção do espaço é sem dúvida ainda um campo vasto e promissor no âmbito das ciências.

Uma consideração a respeito da ideia de produção
A noção de produção que assumimos metodologicamente é a que sistematizamos por contribuição de Henri Lefebvre (1999; 2001). Este trabalha a possibilidade de pensar o espaço social sob pressuposto da produção. Toda sua teoria é basicamente projetada a partir dos conhecimentos oriundos do marxismo. Envolvendo dialeticamente aspectos do tecido urbano, práxis social, e conflito de classes reinsere o contexto explicativo para produção. Assim evidencia duplo aspecto do termo produção, podendo ser restrito, no sentido da produção das coisas mais palpáveis e mais amplo, no sentido das produções humanas que extrapolam os limites do “objetivo”. Importante aqui é apresentar essa concepção destacando como aporte teórico-metodológico.

Movimentos Sociais?
Trabalhamos na perspectiva dos movimentos sociais que tem nas ocupações sua principal expressão de luta por mudança do Status quo. São vários os casos, para citar os mais correntes apontamos como referencia as ocupações de grande repercussão dos movimentos campesinos tendo mais visibilidade nacional as ações do MST quando ocupam latifúndios, sedes de multinacionais, órgãos estatais e até mesmo o centro das grandes cidades; outro caso é dos movimentos que ocupam terra urbana para lutar por direito a moradia, sendo que muitas vezes as ocupações vão além das áreas a serem conquistadas, como por exemplo, ocupações do centro das cidades, prefeituras e demais instituições do Estado com objetivo de “coagir o poder público para o cumprimento das reivindicações” (SANTOS, R. 2008, p.10). Por fim, exemplificamos, movimento social que recentemente teve destaque no uso de ocupação como recurso para defesa de suas pautas foi o movimento de estudantes universitários que ocuparam diversas reitorias de universidades públicas em 2007, ano aniversário de 70 anos da UNE - União Nacional dos Estudantes, que defenderam, dentre outras, manutenção da educação pública, ampliação de vagas sem contingenciamento financeiro e mudança de política econômica do governo federal.
Através destes exemplos, situamos, que movimentos sociais nos referimos, partindo das práticas, denominadas pelos próprios movimentos: ocupações de Latifúndios, órgãos públicos estatais, Reitorias de universidades, terrenos públicos, prédios abandonados no centro de cidades... Podemos reconhecer nestes casos, semelhanças que ajudam a agrupar, em função de suas características, um recorte específico de movimentos sociais.
Bernardo Mançano Fernades traz importante reflexão que vai de encontro com o entendimento de movimentos sociais que tratamos aqui. Em seu artigo “Movimento Social como categoria Geográfica” (FERNANDES, 2000), apresenta a idéia de Movimento Sócio Territorial, destacando a atuação por meio de ocupações. Trabalha baseando-se nas experiências com movimentos sociais rurais, mais especificamente o MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, no entanto propõe que suas reflexões cabem a outros movimentos sociais. Neste artigo o autor procura aprofundar as reflexões a respeito dos processos de espacialização e territorialização da luta pela terra. Quanto a forma de organização dos grupos classifica dois tipos de movimentos, os isolados e os territorializados. Os movimentos isolados1 são ligados a base territorial determinada, suas lutas indicam mais resistência de abrangência local. Já os movimentos territorializados ou “socioterritoriais” estão organizados e atuam em diferentes lugares ao mesmo tempo, ação possibilitada por causa de sua forma de organização, que permite espacializar a luta para conquistar novas frações do território, multiplicando-se no processo de territorialização. Trata-se, portanto, de movimento sócioterritorial em virtude das articulações construídas em rede configurada na escala nacional. (2000, p.68)

Discussão sobre ocupações
O uso acadêmico de ocupação aparece em vários trabalhos que estudam o urbano e as diferenciações das formas de cada fração que compõem a cidade; apresentam o centro, o bairro, a vila, as áreas irregulares e condomínios fechados. Fala-se nos “usos e ocupação” do solo urbano, por exemplo, em estudos que envolvam ordenamento territorial. Em se tratando de áreas juridicamente irregulares em alguns estudos aparecem distinções na classificação; há quem trabalhe com invasões e quem trabalhe com ocupações urbanas ou muitas vezes uma falta de diferenciação que não reflete sobre possíveis singularidades de cada termo, admitindo apenas, o caráter juridicamente irregular da forma urbana, ou seja, atribuindo sentido de sinônimo para ocupação e invasão. Nessa discussão reconhecemos que há diferenças definidoras de cada termo em se tratando de espacialidades. Numa rápida definição Arlete Moyses Rodrigues (RODRIGUES, A. 1988) distingue favelização de ocupação, o que nos permite considerar especificidade nas formações espaciais, onde a primeira seria decorrente de um processo continuo de concentração de famílias sem moradia em áreas precárias ambientalmente, algo fruto da espontaneidade de cada família, o que condicionaria certa “falta” de ordenamento urbanístico, ao contrário da segunda que teria uma organização prévia com preocupação mínima de arranjo espacial, escolha2 de área com possibilidades mínimas de ajustes de moradia para coletividade participante do ato.
Além fato organizativo a ocupação nesse sentido seria uma ação para reivindicação de moradia, uma ação política organizada, além das características espaciais possivelmente diferenciadas. O sentido de ocupação estaria condicionado por ação política organizada.
Outra possibilidade é considerar produção juridicamente irregular do espaço urbano como sendo ocupação espontânea e ocupação organizada, o importante seria a maneira como ocorreu a ocupação, o fato gerador da espacialidade. Neste caso valeria atribuir como sinônimo invasão, sendo espontânea e invasão organizada já que o destaque seria a existência ou não de organização coletiva para usar o espaço, admitindo, que de qualquer forma (espontânea individual/ organizada coletivamente) há irregularidade jurídica. Mas, apoderar-se de forma organizada e coletivamente de espaço para morar, com contestação política pela falta de alternativas, em um contexto onde a produção do espaço é social e os benefícios são privados e para poucos, ocupar significa o mesmo que invadir? Nossa interpretação aponta validade para a ideia de apropriação refletida por Henri Lefebvre, ideia que contrapõe a realidade do domínio projetado e praticado pelo capitalismo.

RESULTADOS: MOVIMENTOS SOCIAIS NA PRODUÇÃO E REPRODUÇÃO DO ESPAÇO URBANO EM SANTA MARIA -RS

Santa Maria no Rio Grande do Sul é uma cidade que tem destaque na história recente na ação de movimentos sociais, sobretudo daqueles que a principal pauta é busca pelo direito a moradia. Um trabalho que ilustra este aspecto da cidade foi produzido por Alessandra Pinheiro (2002), que apresenta um panorama geral das ocupações ao longo das últimas décadas (1970 – 2000). Neste trabalho encontramos uma caracterização dos diversos tipos de ocupações irregulares, mostrando a produção do urbano fora dos padrões urbanísticos legais juridicamente.
Nas décadas de 1960 e 1970 ocorreram 11 ocupações em áreas urbanas de forma irregular em Santa Maria. Na década de 1980 foram 3 e na década seguinte, mais uma vez se destacam o grande número de ocupações, sendo 11 durante a década, com destaque para a Nova Santa Marta, a com maior expressão espacial (Pinheiro, 2002). Nos chama atenção as ocupações organizadas por movimentos sociais, estas ganham maiores expressões espaciais e visibilidade social decorrente da politização do fato. As duas maiores ocupações urbanas de Santa Maria foram decorrentes de ação dos movimentos sociais. A maior delas, Nova Santa Marta já estudamos sua origem, história e realidade sócio-espacial (Scherer, M. 2005; 2008).
O “mapa” da cidade foi nitidamente influenciado pelas ocupações que ocorreram.

Contornos teóricos possíveis pela ação dos movimentos sociais estudados até o momento
Territorialidade e apropriação são palavras que nos remetem a uma determinada ação. Para a discussão de produção e reprodução do urbano por meio dos movimentos sociais torna-se proveitoso, no sentido em que potencialmente qualifica o entendimento do sentido teórico da ação de tais movimentos por meio de ocupações.
Especificamente no caso de abordagem espacial de analise de territórios, se faz necessário confrontar, em se tratando de movimentos sociais e “ocupações” o posicionamento de cada exercício de poder, as relações que permitem a territorialização e espacialização de cada grupo envolvido. Reconhecemos as relações de conflitualidade social na atuação dos movimentos sociais territorializados. Quando movimentos do campo de da cidade realizam ocupações contestam o status quo promovem suas pautas, mas em conflitualidade com outros grupos de interesse, “a ocupação é um processo sócioespacial, é uma ação coletiva, é um investimento sócio político dos trabalhadores na construção da consciência da resistência no processo de exclusão”(FERNANDES, 2000, p. 73).
Partindo da ideia de que as ocupações são uma resistência no processo de exclusão social capitalista e falta de oportunidades políticas, podemos identificar na relação dos significados de ocupação versus invasão um conteúdo de práticas das territorialidades de grupos antagônicos. Ora, que são as práticas dos movimentos sociais senão uma busca de resignificação do espaço através de suas territorializações? A orientação de cada movimento (exemplo, o MST como rural e o MNLM – Movimento Nacional de Luta pela Moradia como urbano) aceita a discussão pública a respeito do significado de ocupação, pois admitem querer problematizar suas pautas, mostrar a abrangência do “fato ocupação” e mais do que isso, indicar que não são invasores, pois buscam condições mais dignas, ou seja, quererem se “apoderar” de melhores condições em suas vidas. Regina Bega dos Santos ajuda a esclarecer a diferença denotando que,
não é simplesmente semântica. No uso do termo invasão estão implícitas a ilegalidade e a violência da ação: invadir a privacidade ou a propriedade de outrem. Trata-se de uma ação ilegítima. O termo ocupação relaciona-se a conquista de um direito: ocupa-se o que é de direito. Aquilo que em algum momento, do passado ou do presente foi usurpado de um grupo ou classe social, mesmo que não tenha sido “diretamente” usurpado. Mas a desigualdade social, que também significa desigualdade de oportunidades, a exploração e a espoliação impediram que esses cidadãos mais pobres tivessem acesso a propriedade da terra ou a moradia. (Santos, R. 2008, p. 132)
Nos parece que o uso dado aos termos ocupação e invasão dependem do grupo que os expressam como representação. Esse fato nos remete a identificar distintas territorialidades que estão em conflito.
Os movimentos sociais ao qual nos referimos são territorializados. Identificamos através de suas práticas um interesse de ampliar seus horizontes em movimento de constante extensão de suas “fronteiras”. Essa idéia nos remete as clássicas proposições de Sack (1986), quando que vê nas estratégias de domínio do espaço uma constante busca por manter a extensão territorial. Fernandes descreve a construção de espaços de socialização política no caso do MST, evidenciando uma forma de organização social. Trata-se de um processo de formação política voltada para a superação de suas realidades, uma continuada preparação para a “ocupação”. Quando da ocupação, é dessa forma que os trabalhadores vem a público e dimensionam o espaço de socialização política, intervindo na realidade, construindo espaço de resistência e luta. Esse dimensionar da luta ocorre através de estratégia deste movimento social, pois constrói uma intervenção para além do lugar concreto da ação. Aqui encontramos o uso de estratégia que extrapola a dimensão do “imediato ocupado”, falo aqui da construção do espaço comunicativo em sociedade.
Uma idéia de Haesbaert apresentada por Ueda diz que “hoje o território é mais do que nunca movimentos, ritmos, fluxos e redes. Não mais se trata de um movimento qualquer ou um movimento de feições meramente funcionais, ele é também um movimento dotado de significados, de expressividade, isto é, que tem um determinado significado para quem constrói e/ou para quem usufrui dele. (Ueda, 2008. p.80)
Como já dito anteriormente, o sentido de ocupação para os movimentos sociais é amplo, eles ocupam o espaço para morar, a discussão política social, as manchetes de jornais, os espaços nos telejornais, os debates acalorados nos plenários das instancias do Estado dentre outras inúmeras maneiras de ocupar. Essa dimensão do ocupar não permite admitir, para uma análise criteriosa, um invadir para morar, invadir discussão política social, invadir as manchetes de jornais e por aí segue... Queremos com essa abordagem concordar com citação apontada anteriormente que “hoje o território é mais do que nunca movimentos, ritmos, fluxos e redes...”; o movimento social estruturado em rede configura através de seus ritmos de atuação um território, o território da luta dos movimentos sociais; “...ele é também um movimento dotado de significados, de expressividade, isto é, que tem um determinado significado para quem constrói e/ou para quem usufrui dele. (Ueda, 2008. p.80)
Ser portador de “significados” e de “expressividade” o território dos movimentos sociais tem constantes fluxos e refluxos que condicionam uma maior ou menor delimitação de sua extensão. As ocupações permitem, construir possibilidades de fluxos que venham a permitir, na disputa social, avanço de suas pautas por meio de sua territorialidade. Neste caso, está estabelecido uma relação estratégica do “ator social” movimentos sociais.
Até o momento fica nossa reflexão no seguinte aspecto: Ocupar comporta sentidos, que buscam nos significados interno de cada movimento no espaço/território, usar estes significados com projeção externa (do local ocupado) para cada vez mais se ampliar e apoderar-se do espaço com ressignificação condicionada pela territorialidade. O sentido do significado interno ao qual falamos, acreditamos ser a produção de representações do espaço.

CONCLUSÃO

Apresentamos até aqui ideias trabalhadas no percurso do grande objetivo de dissertação do mestrado. São preliminares mas que já adiantam conclusões avançadas da pesquisa. É possível vincular a construção do “desenho” da forma urbana de Santa Maria, a estrutura espacial, à presença dos movimentos sociais e suas ações de ocupações na luta por moradia. Reconhecemos assim, a não homogeneidade do processo nem tão pouco linearidade em sua evolução. A facilidade da simples enumeração de datas para o surgimento e crescimento das cidades e suas formas não garante o entendimento da urbanização e desenvolvimento espacial, por este motivo acreditamos ser as contradições históricas suporte para este objetivo. A sucessão dialética das ocasiões históricas nos permite encontrar os nexos explicativos. Curiosamente é na suposta “desorganização” da cidade que encontramos elementos para organizar conhecimentos sobre a cidade. Concluímos que as contradições encontradas no entorno das práticas de ocupações, protagonizadas por movimentos sociais, são suficientes para reconhecer uma urbanização real e não harmônica. Essa urbanização nem sempre tão evidente na sociedade. No estágio em que se encontra, nossa pesquisa revela novos conhecimentos importantes acerca de ação dos movimentos sociais e urbanização por meio de ocupação.
Na continuidade de novos trabalhos certamente teremos desdobramentos na relação ocupação e apropriação do espaço, revelando novo contexto da ação dos movimentos sociais na produção e reprodução do espaço urbano.
Na pesquisa vamos continuar seguindo uma possibilidade bastante atual para um novo desenvolvimento sócio-espacial, que considere além da produção coletiva também uma apropriação coletiva do espaço produzido. O capital reivindica sua reprodução, essa é sua busca constante. Os movimentos sociais organizados territorialmente projetam constantemente uma apropriação compartilhada do espaço, uma nova situação de relação social que contemple suas demandas, democratizando realmente a cidade. O limite para isso são os interesses de quem detém o domínio produtivo deste espaço.
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1 Neste caso incluímos observância de que os “isolados” seguramente também são territorializados, se territorializam também, mas não no nível de escala território nacional/internacional interligado organicamente em rede.
2Adverte-se ao fato de ocorrem ocupações com objetivo unicamente político, onde o ato de ocupar significa uma demarcação das posições políticas no sentido de pressão popular para determinada reivindicação.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Geografia, ciência da sociedade e/ou da natureza?

OBS: Este texto foi escrito no início de 2006, não teve (tem) pretensão de fechar ideias de maneira a apresentar opinião acabada. Foi mais uma reflexão, que agora ao revisar meus arquivos e ao lê-lo novamente, percebi que nessas ideias as vezes confusas pode haver nexo com minhas preocupações mais recentes, sobretudo referente ao mestrado. Como este blog também é um exercício pessoal de construção de pensamento resolvi publicar.

Geografia, ciência da sociedade e/ou da natureza?

A Geografia enquanto um conhecimento organizado, na forma de ciência passou por várias formas de compreender o espaço geográfico. Dentro da história da própria ciência há enfoques metodológicos diferenciados, de como entender o espaço ao longo do tempo. Muitos são os avanços. No entanto devemos compreender, em que sentido ocorrem estes avanços, qual a filosofia que dá influência para que haja tais avanços.
Para Robert Kurz1 é calamitosa a aliança dominante de uma lógica de ciência calcada no desenvolvimento científico-tecnológico na forma de sistema social moderno. Este sistema, dito como moderno está fortemente arraigado no conceito de objetividade e este conceito é projetado a partir da lógica do próprio homem.
Este fato apresentado por Robert Kurz evidencia que por de trás da roupagem da objetividade pregada pela ciência moderna, objetividade que coloca a ciência em prol da melhoria da vida humana, existe um ideal principal que é omitido pelas diversas ciências, este ideal refere-se ao objetivo (criado pelo pensamento dominante da ciência) de manipulação das massas excluídas da ciência. Neste sentido para Robert Kurz “o conceito de "objetividade", tal como se revela em Francis Bacon (1561-1626), nos albores da história científica moderna, é unilateralmente determinado pelo homem, e a respectiva pretensão não se dirige antes de tudo ao conhecimento e à melhora da vida humana, mas à sujeição e ao domínio.”.
“Tal crítica apresentada demonstra que o paradigma epistemológico ciência moderna está longe de ser "neutro"2, portanto não há neutralidade da ciência e quem por ventura for adepto deste entendimento provavelmente está neutralizado por um sistema científico dominante.
Depois de colocar alguns elementos e reafirmar que não há neutralidade da ciência geográfica, proponho um questionamento com objetivo de refletir sobre o encaminhamento dado dentro de algumas partes fragmentadas de nossa ciência, a Geografia.
Entre as partes fragmentadas delimito em primeiro momento a mais expressiva das ultimas décadas, Geografia física e humana. Em um segundo momento, coloco o que julgo ser a mais importante deste início de século, o surgimento da educação ambiental e interferência direta na geografia, culminando com o surgimento de setores científicos identificados com a geografia da natureza.
Na década de 1960 no Brasil ocorre o que poderia dizer de acirramento da “disputa” entre Geografia física e humana. A chamada Geografia crítica (parte Geografia humana) começa a questionar a falta de posicionamento crítico de várias áreas da geografia. Neste jogo de disputa certamente possibilitou certo “avanço” na ciência Geográfica, no entanto, chamo atenção para uma questão que é de escala de pensamento. Os avanços ocorridos naquela disputa não foram suficientes para questionar o paradigma epistemológico da ciência moderna, que está seguindo uma lógica de objetividade científica para dominação daqueles que estão excluídos do sistema acadêmico - que é “sabedor das verdades e supostamente sem posicionamento político”- e, não de melhoria de vida para coletividade humana.
A exigência de uma educação ambiental3, as reflexões sobre a paisagem natural delimitada apenas como rios, matas, arvores e prováveis poluições; torna-se moda na sociedade moderna e muito mais do que isto, torna-se economia ambiental. A Geografia também entra nesta moda com análises ambientais, como se o espaço geográfico fosse dividido em setores, como se o ambiental fosse alguns lugares deste espaço. Eis ai o que julgo ser a mais importante fragmentação do início deste século, o surgimento de uma ciência de abordagem ambiental.
Nesta segunda fragmentação da ciência Geográfica apresenta-se também uma lógica de sujeição e domínio. O que é objetivado por parte dominante da produção científica e a consequente sujeição do conjunto das demais na questão valorativa.
Objetivo destes escritos está longe de responder a pergunta do título, mas sim, aguçar posicionamentos de quê projeto de ciência Geográfica queremos. Ciência por ciência? Ciência que busca melhorias na vida de alguns grupos interessados em dominar os objetivos? Ou... Ciência por melhoria real nas condições de vidas de TODOS?
Por fim gostaria do ultimo questionamento: Sociedade pertence a natureza ou natureza pertence a sociedade? Ou será que sociedade e natureza juntas pertencem ao espaço Geográfico?

1 Robert Kurz é sociólogo e ensaísta alemão, autor de "O Colapso da Modernização" (ed. Paz e Terra) e "Os Últimos Combates" (ed. Vozes).
2 Palavras de Robert Kurz em http://eumatil.vilabol.uol.com.br/naturezaemruinas.htm
3 Não se trata aqui de uma crítica a educação ambiental e nem a tentativa de entendimento da natureza em ruínas pela degradação ambiental, mas sim a falta de entendimento programático da ciência Geográfica, falta de projeção do que é a ciência, ou seja, falta de identidade própria e sujeição ao paradigma dominante dado por necessidade de algumas filosofias de domínio da indústria científica.

sábado, 6 de novembro de 2010

Coice na Inteligência Nacional


A estupidez está sempre ao alcance de todos. Mayara Petruso, patricinha paulista, estudante de Direito, saiu do anonimato para fama, via Twitter, graças a um coice na inteligência nacional. Indignada com a vitória de Dilma Rousseff, a moça disparou este petardo: "Nordestino não é gente, faça um favor a São Paulo, mate um nordestino afogado. Tinham que separar o Nordeste e os bolsas-vadio do Brasil (...) Construindo câmaras de gás no Nordeste, matando geral". No Facebook, a burrinha racista se atolou um pouco mais: "Afunda, Brasil. Deem direito de voto pros nordestinos e afundem o país de quem trabalha pra sustentar vagabundos que fazem filhos pra ganhar bolsa 171". Mayara já perdeu o emprego no escritório onde trabalhava e sofrerá ação judicial protocolada pela OAB.

Alguns jovens universitários paulistas têm revelado um grau superior de idiotice. Depois da turminha que hostilizou uma guria por causa da sua minissaia, apareceu o b ando do "rodeio das gordas", propondo tratar meninas obesas como animais. E agora entra em cena a tal Mayara. O escândalo maior é imaginar que isso representa uma opinião média difundida na Internet. Como será que a mulinha Mayara explica a vitória de Dilma em Minas Gerais? Achar que as ajudas sociais são incentivos à vagabundagem é típico de uma elite primitiva ou de uma classe média ignorante. Qualquer país civilizado, a começar por França, Alemanha, Inglaterra e, evidentemente, países escandinavos, oferece mais ajudas sociais que o Brasil. Não adianta ir à Europa só para comprar bolsas Vuitton. É preciso espiar o cotidiano.

Quem não recebeu e-mails dizendo que Dilma não podia ser candidata por ter nascido na Bulgária? Quantos analistas têm por aí sugerindo que os nordestinos são subeleitores que votaram com o estômago? Quando um empresário escolhe um candidato seduzido pela possibilidade de redução de impostos, o que é legítimo, n ão se trata de voto por interesse? Não é voto com o bolso? Quando ruralistas votam num candidato na esperança de conseguir mais incentivos, o que é comum, não é voto interesseiro? Mayara não deixa de ser o produto de uma estratégia perigosa, a divisão ideológica entre bem e mal. Foi essa perspectiva, cara ao vice Índio da Costa, que José Serra adotou. A revista Veja e o jornal Estado de S. Paulo deram aval a essa idiotice retrógrada. Uau!

O PSDB, que nasceu pretendendo ser moderno e racional, podia mais. Veja, que se acha mais moderna do que os modernos, acabou por produzir leitores Mayara. Isso não tem a ver com partidarismo como imaginam os mais simplórios ou ideológicos. Eu jamais terei partido. Meu único capital é a independência selvagem. Sou a favor do voto de castidade partidária para jornalistas. Tudo pela liberdade de dizer que quem acha o Bolsa-Família um incentivo à vadiagem pensa como Mayara. Esse foi o principal erro tucano na campanha eleitoral: ter guinado à direta para tentar seduzir as Mayaras, que arrastaram um intelectual progressista como Serra para o reacionarismo rasteiro do Estadão e da Veja. Mayaras, nunca mais!

Juremir Machado da Silva, Correio do Povo, 05/11/2010

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Reforma Política: uma ação contra a situação

Reproduzo aqui texto do amigo camarada Igor, uma boa reflexão a luz de um depoimento histórico.


Ao invés de lamentar, combater a corrupção - Por Igor de Fato

Dentro da chuva de e-mails que recebo todos os dias, recebi um que me chamou atenção. A mensagem intitulada “Reclamando do que?”, tinha como tema central “a vergonhosa classe política brasileira”, lembrando que a mesma é eleita pelos brasileiros, sustentando a tese de que os políticos são corruptos porque são um reflexo de quem representam, ou seja, os eleitores. Partindo desta constatação, a mensagem em meio a emoticons (desenhos que expressam emoções) e caracteres de várias cores e tamanhos, conclama para uma “mudança de atitudes” das pessoas. Na frase final, o e-mail sentencia: “A mudança deve começar dentro de nós, nossas casas, nossos valores, nossas atitudes!”

Marina Silva: porta-voz da classe média desiludida

Adorei receber este e-mail porque ilustra um posicionamento que tem hoje em Marina Silva seu principal porta-voz, assim como teve em Heloisa Helena no passado. Quem são essas pessoas escandalizadas com a política que exigem “mudança de atitudes”?

Posso identificar várias características comuns dessas pessoas. Uma delas é a de que um dia votaram no Lula e se desiludiram com os escândalos de corrupção. Em geral, essas pessoas tem um padrão de vida razoável em comparação a maioria da população brasileira, possuem um emprego decente, e um razoável nível de escolaridade. Construíram uma mágoa em relação a política provocado pelas constantes manchetes na imprensa que associam a prática política a atividades desonestas.

Alguns desenvolveram afeição pelas causas ambientais, se sentindo comovidas por formas ativistas de salvação do planeta que partam do plano individual como mudar as atitudes separando o lixo, ou ainda se envolvem em grupos de ativismo que não sejam influenciados pela política partidária, que é tida como suja e digna de distância.

A crise do mensalão e a carta dos movimentos sociais

Quando em 2006 o mensalão foi divulgado na mídia massivamente, eu também fui assaltado pelo sentimento da desilusão, da perplexidade. Mas antes de me posicionar, eu li muito o que se dizia, observei as movimentações. Vi o PSOL se fortalecer, com Heloísa Helena vociferando discursos pela ética. Vi gente como Cristóvam Buarque abandonar o PT, li sua carta de desfiliação. Lia César Benjamin anunciar a morte do PT como partido da transformação, e acompanhei atento o processo de desfiliação de Plínio de Arruda Sampaio. Muito se dizia que política institucional não devia mais ser disputada. Eu só observava a tudo.

Uma coisa que me marcou muito naquela época foi uma movimentação encabeçada pelo MST, pela CUT e pela UNE. O ambiente tenso, a possibilidade de impedimento do governo Lula. Em meio a esse momento, mais de 40 entidades dos movimentos sociais escreveram uma “Carta dos movimentos sociais ao povo brasileiro”, que pautava Contra a desestabilização política do governo e contra a corrupção: Por mudanças na política econômica, pela prioridade nos direitos sociais e por reformas políticas democráticas! Um texto longo, no qual pela primeira vez tive contato com uma proposta de reforma política que tinha como centro o financiamento público exclusivo de campanha, o voto em lista e a fidelidade partidária.

Para mim foi muito importante um movimento como o MST, que me parece o maior movimento social do país hoje, se posicionar contra a desestabilização do governo e pautar uma reforma política. Esse documento foi o primeira voz dissonante daquela gritaria que se ouvia por todos os lados e só sabia reclamar e denunciar. Era um documento propositivo, que não ficava na denúncia pela denúncia, mas que propunha mudanças

A "mudança de atitudes" versus a "reforma política"

A “mudança” dos movimentos sociais é bem diferente dessa “mudança” do e-mail que recebi hoje. A primeira mudança entende a política como instrumento de mudança da própria política, enquanto que a “mudança de atitudes” do e-mail que recebi é uma mudança que se propõe no plano individual, partindo do local desarticulado, sem projeto de nação, de sociedade. “Se cada um fizer a sua parte” é o pressuposto do e-mail. A “mudança” no contexto da carta dos movimentos sociaIs é coletiva, se dá em macro-escala, leva o debate para os grande palcos de disputa de concepções, ou seja, leva a mudança para a macropolítica, articulada, ciente da contradição das forças.

Por não achar que eu tenha o direito de não ser propositivo, é que eu preciso optar. Entre a “mudança” do e-mail e a mudança dos movimentos sociais, minha escolha é pelos movimentos sociais. Entre mudar atitudes na minha casa e esperar que o mundo mude porque estou dando exemplo, e lutar coletiva e militantemente nas ruas e em todos os espaços de tomada de de decisão, eu escolho o segundo caminho. Por que sei que não me posicionar, não propor, é o mesmo que ser conivente com a permanência das coisas como estão.

É por achar que o Brasil precisa avançar na reforma política que combata a corrupção, e que para além disso avance na reforma tributária que onere as grandes fortunas, e que avance no desenvolvimento do país, geração de empregos, distribuição de terras e de renda, sustentabilidade ambiental, minha opção é pela derrota de Serra e pela vitória de Dilma, porque Dilma está muito mais próxima dessas bandeiras democráticas do que Serra.

Mas para além do voto, acho que nossa intervenção deve ser desmesuradamente política. Não ter vergonha de levantar bandeira, de colocar adesivo no peito, de ter posição, ainda que se possa reconhecer eventuais erros na posição tomada. Ficar em cima do muro jamais. Vacilar jamais. Tem muita coisa em jogo. Tem gente passando fome na rua hoje, que vai dormir na rua não sei quanto tempo, e a gente só resolve isso pela intervenção política. Por isso não dá tempo de vacilar. Se trata de abrir o rumo.

A esperança precisa vencer a desilusão. Não aquela esperança que é um cruzar de braços e esperar. Mas aquela esperança que trabalha conscientemente na construção do amanhã coletivo.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Diálogo continuado sobre momento e lucidez sobre o Brasil pelo PCdoB

Na postagem anterior, de maneira brevíssima refleti com as ideias do Renato Rabelho, presidente do PCdoB. Igordefato deu continuidade contribuindo nas reflexões. Apresento aqui seu texto:
O novo e o velho Brasil coexistem - Por Igordefato

Estamos na reta final da campanha, mas nessa manhã eu fiz uma paradinha para pensar um pouco nesse momento que o país vive. É um momento novo, um momento de mudança. E como bem reflete Renato Rabelo, "para o novo surgir e crescer, sempre surge entranhado com o velho". Essa análise é importante para que a gente não se perca e fique sem entender o que está acontecendo.

Tem muita gente que está na turma dos "desiludidos" porque não está entendendo isso. Muitos dos que votaram em Lula em 2002 hoje não votam em Dilma, porque acham que Lula os traiu, baseados nos escândalos do suposto mensalão. Os factóides de corrupção que pulularam na mídia nas eleições de 2006, somados a política econômica de juros altos que privilegia os banqueiros foram um baque para um importante extrato da classe média que se considerou "enganada" . É nessa classe média que está fundamentalmente a base eleitoral de partidos midiáticos como PSOL de Heloísa Helena, e o próprio PV de Marina Silva.

Em 2006, sob ataques raivosos da imprensa empresarial (Globo, Veja, Folha, etc) aliados às vociferações do setor radicalizado da classe média que teve em Heloísa Helena sua melhor porta-voz, Lula mesmo assim resistiu e foi reeleito. Por que? No momento em que a classe média, antes eleitora de Lula, em parte o abandonou, ele foi sustentado por dois extratos da população que antes o apoiavam bem menos: os ricos (industriais, banqueiros, etc) e a população mais pobre, beneficiada pelo Bolsa Família, entre outras políticas.

Essa mudança do eleitorado de Lula reflete uma mudança importante. Os quatro anos iniciais de Lula, caracterizados por uma manutenção dos juros altos aliada às políticas sociais de distribuição de renda criou essa base eleitoral dual.

No Nordeste, onde Lula tem 80% de popularidade, e onde a pobreza é mais intensa, o cenário eleitoral apresenta aspectos curiosos dessa dualidade. Vale destacar Pernambuco e Bahia, onde Eduardo Campos, do PSB, e Jaques Wagner, do PT, estão disparados nas pesquisas das eleições dos governos estaduais, com grandes chances de vitória, representando uma derrota histórica para o coronelismo. No mesmo Nordeste, no Maranhão, a candidata das oligarquias Roseana Sarney é a favorita para a vitória, com o apoio constrangido do PT. Como se vê, a vitória do "novo" em Pernambuco e Bahia pode vir acompanhada da vitória do "velho" no Maranhão.

Conversando com amigos que estiveram no Nordeste, pude ter visões das mudanças que estão acontecendo naquela região. A transposição do Rio São Francisco, aliada às obras do PAC e ao Bolsa Família, estão gerando empregos, levando luz e água para populações que antes tinham acesso precário a esses bens essenciais. Trata-se de um massivo movimento de melhoria da qualidade de vida de milhões de pessoas que antes não tinham o básico do básico: água, comida, luz, emprego decente. Essa é a camada mais intensamente grata a Lula.

Um relato de um nordestino me chamou atenção a respeito disso. Ele me disse que várias pessoas do sul, onde a classe média é mais representativa, acham que os nordestinos são "alienados", que foram "comprados" pelo Bolsa Família. Ele argumenta que essa é uma ideia preconceituosa que a classe média têm dos mais pobres. Acham que os pobres são "burros", sempre massa de manobra.

Ele explicou que os nordestinos pobres sempre souberam que eram explorados pelos coronéis e em grande parte sempre votaram neles, não por serem enganados, mas porque isso lhes garantia minimamente a sobrevivência com as esmolas dadas em troca da permanência no Poder. Mesmo que a esquerda dissesse ao sertanejo pobre que deveria se revoltar por sua pobreza, a dureza da vida severina lhes fazia aceitar calado sua exploração, porque para quem está na miséria, fica difícil projetar grandes projetos de mudança, se pensa em ter um prato de comida para si e para a família.

O Bolsa Família rompeu com o ciclo do coronelismo porque mostrou ao sertanejo concretamente que é possível uma política pública que o permita segurança alimentar sem depender do coronel. Permitiu que o sertanejo pobre tivesse a dignidade de recusar a esmola do coronel. O povo nordestino é eternamente grato ao filho de Garanhuns, e por isso apóia a "Mulher de Lula". Entender esse apoio como "renovação do coronelismo" é desrespeitar a posição política de uma classe que tomou uma decisão legítima em defesa de seus interesses, a despeito da tentativa de manipulação da mídia.

Voltando ao pensamento de Rabelo, "para o novo surgir e crescer, sempre surge entranhado com o velho". Para entender o momento em que vivemos, esse pensamento é essencial.

O Brasil vive seu melhor momento desde a redemocratização, com indicadores sociais consideráveis: 12 milhões de empregos gerados, 27 milhões de pessoas saídas da linha da pobreza, 14 universidades federais novas, milhares de concursos públicos, vagas novas nas universidades, salário mínimo de 300 dólares, a valorização da PETROBRAS. Mas essa novidade surgiu emaranhada no "velho", que representa os juros e os altos lucros dos banqueiros, a manutenção de focos de poder das oligarquias nos meios de comunicação, no sistema político, na estrutura urbana e rural. Dilma, se eleita, fará uma gestão marcada por essa dualidade entre o "novo", que é a emergência da população mais pobre, e o "velho" que é a manutenção dos privilégios da burguesia financeira.

Para colaborar na vitória do novo, a luta será permanente. No entanto, sem clareza de projeto para o país, a luta pode se dar de maneira atabalhoada, atacando muitas vezes inimigos imaginários. Boa parte da classe média está sem projeto de Nação, presa num discurso vazio da ética, da desvalorização da política, do desencanto com o mundo e com o país. Esse setor "desiludido" da classe média teria muito a contribuir com o país se olhasse com solidariedade para o fenômeno novo da conquista da cidadania de milhões de pessoas que estão saindo da miséria, conquistando empregos, entrando nas universidades.

Se a classe média se alia com a classe baixa, o governo poderá ter força para desamarrar nós que parecem cegos, como a reforma tributária com taxação progressiva, desonerando os mais pobres e onerando os mais ricos, a reforma política com financiamento público exlusivo e voto em lista, a reforma urbana que garanta o acesso de todos a cidade, a reforma agrária com a distribuição de terras, a democratização dos meios de comunicação.

A classe média tem em suas mãos uma oportunidade histórica. Basta saber se estará a altura de sua responsabilidade com o país de contribuir para o novo triunfar sobre o velho na construção de uma nação forte, com democracia e distribuição de renda.