quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Geografia, ciência da sociedade e/ou da natureza?

OBS: Este texto foi escrito no início de 2006, não teve (tem) pretensão de fechar ideias de maneira a apresentar opinião acabada. Foi mais uma reflexão, que agora ao revisar meus arquivos e ao lê-lo novamente, percebi que nessas ideias as vezes confusas pode haver nexo com minhas preocupações mais recentes, sobretudo referente ao mestrado. Como este blog também é um exercício pessoal de construção de pensamento resolvi publicar.

Geografia, ciência da sociedade e/ou da natureza?

A Geografia enquanto um conhecimento organizado, na forma de ciência passou por várias formas de compreender o espaço geográfico. Dentro da história da própria ciência há enfoques metodológicos diferenciados, de como entender o espaço ao longo do tempo. Muitos são os avanços. No entanto devemos compreender, em que sentido ocorrem estes avanços, qual a filosofia que dá influência para que haja tais avanços.
Para Robert Kurz1 é calamitosa a aliança dominante de uma lógica de ciência calcada no desenvolvimento científico-tecnológico na forma de sistema social moderno. Este sistema, dito como moderno está fortemente arraigado no conceito de objetividade e este conceito é projetado a partir da lógica do próprio homem.
Este fato apresentado por Robert Kurz evidencia que por de trás da roupagem da objetividade pregada pela ciência moderna, objetividade que coloca a ciência em prol da melhoria da vida humana, existe um ideal principal que é omitido pelas diversas ciências, este ideal refere-se ao objetivo (criado pelo pensamento dominante da ciência) de manipulação das massas excluídas da ciência. Neste sentido para Robert Kurz “o conceito de "objetividade", tal como se revela em Francis Bacon (1561-1626), nos albores da história científica moderna, é unilateralmente determinado pelo homem, e a respectiva pretensão não se dirige antes de tudo ao conhecimento e à melhora da vida humana, mas à sujeição e ao domínio.”.
“Tal crítica apresentada demonstra que o paradigma epistemológico ciência moderna está longe de ser "neutro"2, portanto não há neutralidade da ciência e quem por ventura for adepto deste entendimento provavelmente está neutralizado por um sistema científico dominante.
Depois de colocar alguns elementos e reafirmar que não há neutralidade da ciência geográfica, proponho um questionamento com objetivo de refletir sobre o encaminhamento dado dentro de algumas partes fragmentadas de nossa ciência, a Geografia.
Entre as partes fragmentadas delimito em primeiro momento a mais expressiva das ultimas décadas, Geografia física e humana. Em um segundo momento, coloco o que julgo ser a mais importante deste início de século, o surgimento da educação ambiental e interferência direta na geografia, culminando com o surgimento de setores científicos identificados com a geografia da natureza.
Na década de 1960 no Brasil ocorre o que poderia dizer de acirramento da “disputa” entre Geografia física e humana. A chamada Geografia crítica (parte Geografia humana) começa a questionar a falta de posicionamento crítico de várias áreas da geografia. Neste jogo de disputa certamente possibilitou certo “avanço” na ciência Geográfica, no entanto, chamo atenção para uma questão que é de escala de pensamento. Os avanços ocorridos naquela disputa não foram suficientes para questionar o paradigma epistemológico da ciência moderna, que está seguindo uma lógica de objetividade científica para dominação daqueles que estão excluídos do sistema acadêmico - que é “sabedor das verdades e supostamente sem posicionamento político”- e, não de melhoria de vida para coletividade humana.
A exigência de uma educação ambiental3, as reflexões sobre a paisagem natural delimitada apenas como rios, matas, arvores e prováveis poluições; torna-se moda na sociedade moderna e muito mais do que isto, torna-se economia ambiental. A Geografia também entra nesta moda com análises ambientais, como se o espaço geográfico fosse dividido em setores, como se o ambiental fosse alguns lugares deste espaço. Eis ai o que julgo ser a mais importante fragmentação do início deste século, o surgimento de uma ciência de abordagem ambiental.
Nesta segunda fragmentação da ciência Geográfica apresenta-se também uma lógica de sujeição e domínio. O que é objetivado por parte dominante da produção científica e a consequente sujeição do conjunto das demais na questão valorativa.
Objetivo destes escritos está longe de responder a pergunta do título, mas sim, aguçar posicionamentos de quê projeto de ciência Geográfica queremos. Ciência por ciência? Ciência que busca melhorias na vida de alguns grupos interessados em dominar os objetivos? Ou... Ciência por melhoria real nas condições de vidas de TODOS?
Por fim gostaria do ultimo questionamento: Sociedade pertence a natureza ou natureza pertence a sociedade? Ou será que sociedade e natureza juntas pertencem ao espaço Geográfico?

1 Robert Kurz é sociólogo e ensaísta alemão, autor de "O Colapso da Modernização" (ed. Paz e Terra) e "Os Últimos Combates" (ed. Vozes).
2 Palavras de Robert Kurz em http://eumatil.vilabol.uol.com.br/naturezaemruinas.htm
3 Não se trata aqui de uma crítica a educação ambiental e nem a tentativa de entendimento da natureza em ruínas pela degradação ambiental, mas sim a falta de entendimento programático da ciência Geográfica, falta de projeção do que é a ciência, ou seja, falta de identidade própria e sujeição ao paradigma dominante dado por necessidade de algumas filosofias de domínio da indústria científica.

sábado, 6 de novembro de 2010

Coice na Inteligência Nacional


A estupidez está sempre ao alcance de todos. Mayara Petruso, patricinha paulista, estudante de Direito, saiu do anonimato para fama, via Twitter, graças a um coice na inteligência nacional. Indignada com a vitória de Dilma Rousseff, a moça disparou este petardo: "Nordestino não é gente, faça um favor a São Paulo, mate um nordestino afogado. Tinham que separar o Nordeste e os bolsas-vadio do Brasil (...) Construindo câmaras de gás no Nordeste, matando geral". No Facebook, a burrinha racista se atolou um pouco mais: "Afunda, Brasil. Deem direito de voto pros nordestinos e afundem o país de quem trabalha pra sustentar vagabundos que fazem filhos pra ganhar bolsa 171". Mayara já perdeu o emprego no escritório onde trabalhava e sofrerá ação judicial protocolada pela OAB.

Alguns jovens universitários paulistas têm revelado um grau superior de idiotice. Depois da turminha que hostilizou uma guria por causa da sua minissaia, apareceu o b ando do "rodeio das gordas", propondo tratar meninas obesas como animais. E agora entra em cena a tal Mayara. O escândalo maior é imaginar que isso representa uma opinião média difundida na Internet. Como será que a mulinha Mayara explica a vitória de Dilma em Minas Gerais? Achar que as ajudas sociais são incentivos à vagabundagem é típico de uma elite primitiva ou de uma classe média ignorante. Qualquer país civilizado, a começar por França, Alemanha, Inglaterra e, evidentemente, países escandinavos, oferece mais ajudas sociais que o Brasil. Não adianta ir à Europa só para comprar bolsas Vuitton. É preciso espiar o cotidiano.

Quem não recebeu e-mails dizendo que Dilma não podia ser candidata por ter nascido na Bulgária? Quantos analistas têm por aí sugerindo que os nordestinos são subeleitores que votaram com o estômago? Quando um empresário escolhe um candidato seduzido pela possibilidade de redução de impostos, o que é legítimo, n ão se trata de voto por interesse? Não é voto com o bolso? Quando ruralistas votam num candidato na esperança de conseguir mais incentivos, o que é comum, não é voto interesseiro? Mayara não deixa de ser o produto de uma estratégia perigosa, a divisão ideológica entre bem e mal. Foi essa perspectiva, cara ao vice Índio da Costa, que José Serra adotou. A revista Veja e o jornal Estado de S. Paulo deram aval a essa idiotice retrógrada. Uau!

O PSDB, que nasceu pretendendo ser moderno e racional, podia mais. Veja, que se acha mais moderna do que os modernos, acabou por produzir leitores Mayara. Isso não tem a ver com partidarismo como imaginam os mais simplórios ou ideológicos. Eu jamais terei partido. Meu único capital é a independência selvagem. Sou a favor do voto de castidade partidária para jornalistas. Tudo pela liberdade de dizer que quem acha o Bolsa-Família um incentivo à vadiagem pensa como Mayara. Esse foi o principal erro tucano na campanha eleitoral: ter guinado à direta para tentar seduzir as Mayaras, que arrastaram um intelectual progressista como Serra para o reacionarismo rasteiro do Estadão e da Veja. Mayaras, nunca mais!

Juremir Machado da Silva, Correio do Povo, 05/11/2010

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Reforma Política: uma ação contra a situação

Reproduzo aqui texto do amigo camarada Igor, uma boa reflexão a luz de um depoimento histórico.


Ao invés de lamentar, combater a corrupção - Por Igor de Fato

Dentro da chuva de e-mails que recebo todos os dias, recebi um que me chamou atenção. A mensagem intitulada “Reclamando do que?”, tinha como tema central “a vergonhosa classe política brasileira”, lembrando que a mesma é eleita pelos brasileiros, sustentando a tese de que os políticos são corruptos porque são um reflexo de quem representam, ou seja, os eleitores. Partindo desta constatação, a mensagem em meio a emoticons (desenhos que expressam emoções) e caracteres de várias cores e tamanhos, conclama para uma “mudança de atitudes” das pessoas. Na frase final, o e-mail sentencia: “A mudança deve começar dentro de nós, nossas casas, nossos valores, nossas atitudes!”

Marina Silva: porta-voz da classe média desiludida

Adorei receber este e-mail porque ilustra um posicionamento que tem hoje em Marina Silva seu principal porta-voz, assim como teve em Heloisa Helena no passado. Quem são essas pessoas escandalizadas com a política que exigem “mudança de atitudes”?

Posso identificar várias características comuns dessas pessoas. Uma delas é a de que um dia votaram no Lula e se desiludiram com os escândalos de corrupção. Em geral, essas pessoas tem um padrão de vida razoável em comparação a maioria da população brasileira, possuem um emprego decente, e um razoável nível de escolaridade. Construíram uma mágoa em relação a política provocado pelas constantes manchetes na imprensa que associam a prática política a atividades desonestas.

Alguns desenvolveram afeição pelas causas ambientais, se sentindo comovidas por formas ativistas de salvação do planeta que partam do plano individual como mudar as atitudes separando o lixo, ou ainda se envolvem em grupos de ativismo que não sejam influenciados pela política partidária, que é tida como suja e digna de distância.

A crise do mensalão e a carta dos movimentos sociais

Quando em 2006 o mensalão foi divulgado na mídia massivamente, eu também fui assaltado pelo sentimento da desilusão, da perplexidade. Mas antes de me posicionar, eu li muito o que se dizia, observei as movimentações. Vi o PSOL se fortalecer, com Heloísa Helena vociferando discursos pela ética. Vi gente como Cristóvam Buarque abandonar o PT, li sua carta de desfiliação. Lia César Benjamin anunciar a morte do PT como partido da transformação, e acompanhei atento o processo de desfiliação de Plínio de Arruda Sampaio. Muito se dizia que política institucional não devia mais ser disputada. Eu só observava a tudo.

Uma coisa que me marcou muito naquela época foi uma movimentação encabeçada pelo MST, pela CUT e pela UNE. O ambiente tenso, a possibilidade de impedimento do governo Lula. Em meio a esse momento, mais de 40 entidades dos movimentos sociais escreveram uma “Carta dos movimentos sociais ao povo brasileiro”, que pautava Contra a desestabilização política do governo e contra a corrupção: Por mudanças na política econômica, pela prioridade nos direitos sociais e por reformas políticas democráticas! Um texto longo, no qual pela primeira vez tive contato com uma proposta de reforma política que tinha como centro o financiamento público exclusivo de campanha, o voto em lista e a fidelidade partidária.

Para mim foi muito importante um movimento como o MST, que me parece o maior movimento social do país hoje, se posicionar contra a desestabilização do governo e pautar uma reforma política. Esse documento foi o primeira voz dissonante daquela gritaria que se ouvia por todos os lados e só sabia reclamar e denunciar. Era um documento propositivo, que não ficava na denúncia pela denúncia, mas que propunha mudanças

A "mudança de atitudes" versus a "reforma política"

A “mudança” dos movimentos sociais é bem diferente dessa “mudança” do e-mail que recebi hoje. A primeira mudança entende a política como instrumento de mudança da própria política, enquanto que a “mudança de atitudes” do e-mail que recebi é uma mudança que se propõe no plano individual, partindo do local desarticulado, sem projeto de nação, de sociedade. “Se cada um fizer a sua parte” é o pressuposto do e-mail. A “mudança” no contexto da carta dos movimentos sociaIs é coletiva, se dá em macro-escala, leva o debate para os grande palcos de disputa de concepções, ou seja, leva a mudança para a macropolítica, articulada, ciente da contradição das forças.

Por não achar que eu tenha o direito de não ser propositivo, é que eu preciso optar. Entre a “mudança” do e-mail e a mudança dos movimentos sociais, minha escolha é pelos movimentos sociais. Entre mudar atitudes na minha casa e esperar que o mundo mude porque estou dando exemplo, e lutar coletiva e militantemente nas ruas e em todos os espaços de tomada de de decisão, eu escolho o segundo caminho. Por que sei que não me posicionar, não propor, é o mesmo que ser conivente com a permanência das coisas como estão.

É por achar que o Brasil precisa avançar na reforma política que combata a corrupção, e que para além disso avance na reforma tributária que onere as grandes fortunas, e que avance no desenvolvimento do país, geração de empregos, distribuição de terras e de renda, sustentabilidade ambiental, minha opção é pela derrota de Serra e pela vitória de Dilma, porque Dilma está muito mais próxima dessas bandeiras democráticas do que Serra.

Mas para além do voto, acho que nossa intervenção deve ser desmesuradamente política. Não ter vergonha de levantar bandeira, de colocar adesivo no peito, de ter posição, ainda que se possa reconhecer eventuais erros na posição tomada. Ficar em cima do muro jamais. Vacilar jamais. Tem muita coisa em jogo. Tem gente passando fome na rua hoje, que vai dormir na rua não sei quanto tempo, e a gente só resolve isso pela intervenção política. Por isso não dá tempo de vacilar. Se trata de abrir o rumo.

A esperança precisa vencer a desilusão. Não aquela esperança que é um cruzar de braços e esperar. Mas aquela esperança que trabalha conscientemente na construção do amanhã coletivo.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Diálogo continuado sobre momento e lucidez sobre o Brasil pelo PCdoB

Na postagem anterior, de maneira brevíssima refleti com as ideias do Renato Rabelho, presidente do PCdoB. Igordefato deu continuidade contribuindo nas reflexões. Apresento aqui seu texto:
O novo e o velho Brasil coexistem - Por Igordefato

Estamos na reta final da campanha, mas nessa manhã eu fiz uma paradinha para pensar um pouco nesse momento que o país vive. É um momento novo, um momento de mudança. E como bem reflete Renato Rabelo, "para o novo surgir e crescer, sempre surge entranhado com o velho". Essa análise é importante para que a gente não se perca e fique sem entender o que está acontecendo.

Tem muita gente que está na turma dos "desiludidos" porque não está entendendo isso. Muitos dos que votaram em Lula em 2002 hoje não votam em Dilma, porque acham que Lula os traiu, baseados nos escândalos do suposto mensalão. Os factóides de corrupção que pulularam na mídia nas eleições de 2006, somados a política econômica de juros altos que privilegia os banqueiros foram um baque para um importante extrato da classe média que se considerou "enganada" . É nessa classe média que está fundamentalmente a base eleitoral de partidos midiáticos como PSOL de Heloísa Helena, e o próprio PV de Marina Silva.

Em 2006, sob ataques raivosos da imprensa empresarial (Globo, Veja, Folha, etc) aliados às vociferações do setor radicalizado da classe média que teve em Heloísa Helena sua melhor porta-voz, Lula mesmo assim resistiu e foi reeleito. Por que? No momento em que a classe média, antes eleitora de Lula, em parte o abandonou, ele foi sustentado por dois extratos da população que antes o apoiavam bem menos: os ricos (industriais, banqueiros, etc) e a população mais pobre, beneficiada pelo Bolsa Família, entre outras políticas.

Essa mudança do eleitorado de Lula reflete uma mudança importante. Os quatro anos iniciais de Lula, caracterizados por uma manutenção dos juros altos aliada às políticas sociais de distribuição de renda criou essa base eleitoral dual.

No Nordeste, onde Lula tem 80% de popularidade, e onde a pobreza é mais intensa, o cenário eleitoral apresenta aspectos curiosos dessa dualidade. Vale destacar Pernambuco e Bahia, onde Eduardo Campos, do PSB, e Jaques Wagner, do PT, estão disparados nas pesquisas das eleições dos governos estaduais, com grandes chances de vitória, representando uma derrota histórica para o coronelismo. No mesmo Nordeste, no Maranhão, a candidata das oligarquias Roseana Sarney é a favorita para a vitória, com o apoio constrangido do PT. Como se vê, a vitória do "novo" em Pernambuco e Bahia pode vir acompanhada da vitória do "velho" no Maranhão.

Conversando com amigos que estiveram no Nordeste, pude ter visões das mudanças que estão acontecendo naquela região. A transposição do Rio São Francisco, aliada às obras do PAC e ao Bolsa Família, estão gerando empregos, levando luz e água para populações que antes tinham acesso precário a esses bens essenciais. Trata-se de um massivo movimento de melhoria da qualidade de vida de milhões de pessoas que antes não tinham o básico do básico: água, comida, luz, emprego decente. Essa é a camada mais intensamente grata a Lula.

Um relato de um nordestino me chamou atenção a respeito disso. Ele me disse que várias pessoas do sul, onde a classe média é mais representativa, acham que os nordestinos são "alienados", que foram "comprados" pelo Bolsa Família. Ele argumenta que essa é uma ideia preconceituosa que a classe média têm dos mais pobres. Acham que os pobres são "burros", sempre massa de manobra.

Ele explicou que os nordestinos pobres sempre souberam que eram explorados pelos coronéis e em grande parte sempre votaram neles, não por serem enganados, mas porque isso lhes garantia minimamente a sobrevivência com as esmolas dadas em troca da permanência no Poder. Mesmo que a esquerda dissesse ao sertanejo pobre que deveria se revoltar por sua pobreza, a dureza da vida severina lhes fazia aceitar calado sua exploração, porque para quem está na miséria, fica difícil projetar grandes projetos de mudança, se pensa em ter um prato de comida para si e para a família.

O Bolsa Família rompeu com o ciclo do coronelismo porque mostrou ao sertanejo concretamente que é possível uma política pública que o permita segurança alimentar sem depender do coronel. Permitiu que o sertanejo pobre tivesse a dignidade de recusar a esmola do coronel. O povo nordestino é eternamente grato ao filho de Garanhuns, e por isso apóia a "Mulher de Lula". Entender esse apoio como "renovação do coronelismo" é desrespeitar a posição política de uma classe que tomou uma decisão legítima em defesa de seus interesses, a despeito da tentativa de manipulação da mídia.

Voltando ao pensamento de Rabelo, "para o novo surgir e crescer, sempre surge entranhado com o velho". Para entender o momento em que vivemos, esse pensamento é essencial.

O Brasil vive seu melhor momento desde a redemocratização, com indicadores sociais consideráveis: 12 milhões de empregos gerados, 27 milhões de pessoas saídas da linha da pobreza, 14 universidades federais novas, milhares de concursos públicos, vagas novas nas universidades, salário mínimo de 300 dólares, a valorização da PETROBRAS. Mas essa novidade surgiu emaranhada no "velho", que representa os juros e os altos lucros dos banqueiros, a manutenção de focos de poder das oligarquias nos meios de comunicação, no sistema político, na estrutura urbana e rural. Dilma, se eleita, fará uma gestão marcada por essa dualidade entre o "novo", que é a emergência da população mais pobre, e o "velho" que é a manutenção dos privilégios da burguesia financeira.

Para colaborar na vitória do novo, a luta será permanente. No entanto, sem clareza de projeto para o país, a luta pode se dar de maneira atabalhoada, atacando muitas vezes inimigos imaginários. Boa parte da classe média está sem projeto de Nação, presa num discurso vazio da ética, da desvalorização da política, do desencanto com o mundo e com o país. Esse setor "desiludido" da classe média teria muito a contribuir com o país se olhasse com solidariedade para o fenômeno novo da conquista da cidadania de milhões de pessoas que estão saindo da miséria, conquistando empregos, entrando nas universidades.

Se a classe média se alia com a classe baixa, o governo poderá ter força para desamarrar nós que parecem cegos, como a reforma tributária com taxação progressiva, desonerando os mais pobres e onerando os mais ricos, a reforma política com financiamento público exlusivo e voto em lista, a reforma urbana que garanta o acesso de todos a cidade, a reforma agrária com a distribuição de terras, a democratização dos meios de comunicação.

A classe média tem em suas mãos uma oportunidade histórica. Basta saber se estará a altura de sua responsabilidade com o país de contribuir para o novo triunfar sobre o velho na construção de uma nação forte, com democracia e distribuição de renda.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Momento histórico e lucidez do Partido mais antigo do Brasil

Ao pensar estas eleições, cabe uma análise do momento histórico vivido pelo partido mais antigo do Brasil, o PCdoB. Renato Rabelo faz observações muito pertinentes nesta matéria publicada na portal Vermelho. http://www.vermelho.org.br/ba/noticia.php?id_noticia=138188&id_secao=58

Interessante que é na democracia que o Partido se destaca, visto que por muitos momentos foi colocado na ilegalidade por governos ditadores.

Outro ponto muito convidativo ao pensar está no desfeche da entrevista, onde ele diz:
Momento "...é uma fase atual que a gente tem que avançar mais para consolidar as conquistas, porque às vezes as pessoas não têm dimensão dessa realidade política que está surgindo no Brasil. Às vezes, surge mesclado ainda com o velho e as pessoas não entendem isso, acham que o novo já surge puro, decantado. A revolução do processo político social não é assim. Então, o importante é a dominância desse novo com as novas ideias, os novos projetos, os novos objetivos que levam em conta o progresso social."

Nestas palavras, reconhecemos a identificação dialética contida no interior da dinâmica social. O "Velho" está aí, mas na esteira do domínio da mudança, do novo progressista.

Venhamos a pensar...



terça-feira, 10 de agosto de 2010

"Minha luta é para nunca esquecer, minha vida é para sempre vencer!"

Reflexão da madrugada. Esta frase pode resumir o sentido dos pensamentos que tenho, e sugerir firmeza ao caminho que tenho a percorrer. Esquecer o que se adquire de humano é embrutecer, por isso minha vida deve ser pra sempre vencer. Superar o bruto e alcançar o humano!

sábado, 7 de agosto de 2010

Meio ambiente e código florestal: diagnóstico é de todos, mas a intervenção é de poucos

Venho nas últimas semanas pensando muito sobre as repercussões das opiniões sobre o relatório que propõe mudanças ao Código Florestal Brasileiro. Questões de meio ambiente são nos dias de hoje fatos de grande discussão, seja qual for o tema. No geral as pessoas se preocupam com os problemas ambientais, esta é a lógica de toda argumentação feita entorno das propostas de novo Código, preocupação com o meio ambiente. Pretendo aqui refletir estes aspectos de maneira a elucidar caminhos para uma intervenção responsável no trato deste assunto. Tentarei exercitar as reflexões em três momentos.

I Momento

Estas preocupações com o meio ambiente por certo, seguem busca para o cuidado do entorno em que vivemos. Mas é sempre bom decantar as grandes discussões pelo princípio fundador de tais preocupações. Porque devemos ter cuidado com o meio ambiente? Resposta parece óbvia: mudanças climáticas, perda de qualidade na saúde coletiva da população devido a poluição, catástrofes de grande impacto nos ambientes, desequilíbrio nas precipitações pluviométricas, as inundações e por aí seguem. Nisso tudo parece que a relação construída homem/natureza padece com sérios problemas, e não duvido disso.

Mesmo assim devemos estar atentos e constantemente refinar nossas preocupações; ultrapassar a resposta óbvia, para inclusive construir opinião avançada sobre o porquê de tais problemas. Será que enquanto humanidade, nós falhamos por não ter construído sólida legislação ambiental no tempo certo, ou seja, houve demora na construção de leis adequadas? Evidentemente que não. Vejamos o caso brasileiro: uma boa legislação existe desde 1965 no que se refere a áreas florestais. Ótima lei quando comparamos com demais países, e este fato é grande consenso entre os preocupados e entendidos do assunto. Descompromissadamente neste caso, considerando tempo certo período da construção da lei, haveríamos de ter contido os desmatamentos criminosos desde este período. Mas então, o que ocorreu neste território ao longo das décadas em que vigorou o atual Código Florestal? Mantivemos boa preservação? O acirramento da luta ambientalista nos mostra que na realidade, as últimas décadas foram de muitos desacordos entre realização prática da relação sociedade/natureza e legislação. O maior tempo origem da lei não interferiria na resolução prática, inda mais quando lembramos da diferença sócio-cultural de que décadas passadas podem conferir a concepção do executável.

Os militantes da causa ambiental sempre preocupados, atuam para evitar excessos de impactos na relação homem-meio, sobretudo denunciando crimes ambientais. Um crime ambiental é entendido como desacordo no uso do meio com a regulamentação legal. Ocorre uma distancia grande entre projeção legal, do correto posto em lei e prática nos usos do meio (ambiente). Sabemos que muitos crimes foram e estão sendo realizados com o, ultimamente tão falado, meio ambiente. Lamentavelmente não alcançamos sucesso da legislação. Citamos aqui exemplo brasileiro, mas seguramente trata-se de problema multinacional, cabendo pequenas nuances dependendo do lugar.

No que temos visto, a legislação tem projetado uma relação quase que ideal do homem com seu ambiente, uma relação que minimiza-se impactos para evitar as "reações" da natureza contra o próprio homem (catástrofes, mudanças climáticas...). As preocupações que motivaram a humanidade pensar, analisar e projetar leis de cuidado com o meio ambiente, foram supostas “reações” da natureza para com o próprio homem. A preocupação com a natureza historicamente se constrói partindo das necessidades do homem. Mesmo assim a preocupação segue numa constante, pois nos ronda o medo do “descontrole da natureza”. Sobre esta última expressão prefiro retomar adiante.

Voltando agora para a discussão das leis, então, será que podemos dizer que mesmo não sendo o tempo de criação da legislação um fator decisivo para pensar sucesso de cuidado com meio ambiente, o conteúdo da legislação foi o problema, sendo que não coibiu os crimes ambientais? Creio que não. A legislação projetava o ideal, o que deveria ser o correto, mas parece que este ideal fica longe, muito longe da prática que o homem em sociedade tem com seu espaço. Alguns apontam o problema para o Estado, para a falta de fiscalização do território, onde aí estaria o erro, e não na legislação. Mas porque não funcionou a fiscalização da lei? Frequentemente ouço opiniões que apontam para corrupção de funcionários fiscalizadores, má vontade de governantes, falta de estrutura para acompanhar tamanho território nacional, enfim, uma série de explicações que tendem a responder a questão. Estas explicações aparentemente são evidencias do problema. Mas será que realmente são? Acredito que de certa forma sim, mas somente de certa forma. São evidencias do problema quando entendemos o problema sendo o não ajuste da prática com a lei, quando olhamos para a realidade guiados pelo olhar pré concebido com idealização do real pelas leis e pela harmonia nas funções do Estado. Queremos exigir que se cumpra de maneira efetiva fiscalizações dos órgãos do Estado, garantindo cumprimento da legislação. Apontamos códigos escritos projetados para ser uma realidade, tendemos a acreditar que o exercício do Estado deve manter o molde projetado pelas leis mas verificamos, ao pensar o território uma imensa distancia. Leis e fiscalização destas tem sido um problema global, não somente do Brasil. Já podemos ficar seguros de que o tempo de surgimento das leis e o conteúdo delas não são o verdadeiro problema para nossas preocupações com meio ambiente.

A síntese que a legislação mais a fiscalização tem conferido para o exercício humano no meio ambiente, temos colocado como o problema central, mas deixamos de lado o entendimento da prática humana em sociedade. Como tem se dado essa prática e o que é propulsor dela?

Nos parece que há uma tendência da prática social consolidada para manter uma dada relação do homem com seu meio, mesmo na existência de uma legislação que tente normatizar avanços. A realidade vivida é mais forte que a realidade projetada por lei. Basta lembrar que na Constituição temos máximas que falam que todos tem direito a alimentação, moradia, educação e saúde e na realidade... Nestas frases até pode parecer que quem escreve aqui, renega a importância da legislação, mas na verdade, não é isso. Minha preocupação é com o exequível na prática, o que podemos resolver para ter avanço histórico de melhorias da relação sociedade natureza? Pelo breve pensado até aqui, podemos refutar a suposta condição harmônica de mudança dos padrões de relação meio-homem via Estado e legislação tal como temos hoje. A mantença da situação nos mostra uma impotência de intervir com o problema posto da maneira como temos visto.

Não adianta guiarmos nossos pensamentos para idealizações que nos afastam da urgência do momento. Esta urgência de momento que me refiro diz respeito a má condução do mundo, cujo o diagnóstico é de todos, mas a intervenção é de poucos. Aliás, que prática é essa que o homem tem com o espaço? Como tem se dado essa prática e o que é propulsor dela?